|
É POSSÍVEL
CONVIVER COM A DOENÇA E A DOR E SER FELIZ
O Centro Budista
Vajrapani de Indaiatuba sediará, no próximo 1 de junho,
a iniciação do Buda da Medicina no espaço Tom da
Terra à Av. Presidente Vargas, 1.100. Iniciação
é uma cerimônia na qual todos os participantes, sejam
budistas ou não, recebem bênçãos que têm
o poder de trazer realizações e felicidade. No caso do
Buda da Medicina, essas bênçãos têm um
grande poder de cura, tanto para as doenças físicas
quanto para as espirituais. A iniciação será
concedida pela Professora Residente do Centro Budista Mahabodi, em
São Paulo, a monja Gen Kelsang Pelsang. Na entrevista que se
segue, a monja afirma que conviver com a doença e a dor pode
ser um caminho que, se bem orientado, nos levará à paz
mental e à felicidade.
1. Site Meditadores - A
vida moderna nos envolve em uma sucessão de problemas dos
quais quase nunca podemos fugir: o ritmo de trabalho desumano, os
problemas de relacionamento, as demandas da família e a nossa
sobrevivência num mundo que se tornou cada vez mais violento e
difícil. Isso acontece até mesmo nas pequenas cidades.
É possível viver em um mundo assim tão pouco
acolhedor e cheio de problemas sem ficar doente?
Gen Kelsang Pelsang
-
Não, não é
possível. Mas isso não chega a ser uma novidade do
mundo moderno. Há mais de 2600 anos, Buda dizia que o
sofrimento é a natureza desta vida. No mínimo, todos
nós passamos pelos sofrimentos do nascimento, envelhecimento,
doença e morte; todos nós temos de conviver com
situações que não gostamos e passar por uma
existência na qual não podemos realizar todos os nossos
desejos. Se o sofrimento é inevitável, por que reagimos
com tanta surpresa e rejeição a ele? Por que teimamos
em achar que não ficaremos doentes, que não
envelheceremos e que não morreremos? Queremos, a todo custo,
eliminar o sofrimento da nossa vida, mas, quanto mais tentamos, mais
ele aumenta. Ser feliz talvez seja “aprender a aceitar o
inevitável” e tirar algum proveito disso.
2. Site Meditadores - A
primeira vista, parece-nos muito difícil manter estados
mentais serenos e felizes quando estamos doentes e sentindo dor. Mas
os budistas dizem que isso é possível. Como fazer
isso?
Gen
Kelsang Pelsang
-
Não
existe uma saúde perfeita, uma vida perfeita, um mundo
perfeito. Nós não temos a obrigação de
estarmos sempre alegres, sempre realizados e sempre felizes. Exigir
esse desempenho de nós mesmos é muito cansativo e
irreal! Buda ensina que é melhor aprendermos a aceitar todas
as situações que nos acontecem com bom humor e alegria.
Assim, quando faz sol, dizemos que estamos recebendo bênçãos;
quando chove, também estamos recebendo bênção...
só que, molhadas. Se nos recusamos a aceitar nossa dor e o
nosso sofrimento, eles vão aumentar. Buda ensina a meditar
sobre os benefícios da dor e do sofrimento. Isso nos ajuda a
enfrentar momentos difíceis com a mente serena e,
conseqüentemente, com menos dor e maior contentamento.
3. Site Meditadores - Você
quer dizer que, então, podemos, de alguma maneira, ter alguma
influência espiritual sobre nossa saúde. Qual é
o papel que nos cabe no processo de cura e no controle de nossas
doenças?
Gen
Kelsang Pelsang
-
Se
tivermos recursos e acesso a bons especialistas, é claro que
devemos recorrer a eles para nos tratar, sim. Mas existe uma
diferença entre usar recursos que estão ao nosso dispor
e nos tornarmos apáticos e dependentes deles.
Tendemos
a “deixar tudo na mão de especialistas”, mas essa atitude
é uma forma de nos tornarmos omissos em nosso processo de
cura. Buda é capaz
de nos ajudar a curar nossas doenças físicas e mentais.
E ele faz isso ao nos ensinar práticas efetivas que, se forem
seguidas com fé e persistência, podem mudar
profundamente nossa mente e, dessa forma, interromper o curso da
doença e a forma destrutiva com que, muitas vezes, lidamos com
ela e com a dor.
4. Site Meditadores - Do
ponto de vista do Budismo, como surgem as doenças?
Gen
Kelsang Pelsang
-
As
doenças, mesmo aquelas mais debilitantes, como o câncer,
têm causas múltiplas e, entre elas, estão as
marcas deixadas em nossa mente por ações negativas que
praticamos no passado recente e, segundo o Budismo, também em
outras vidas. A relação entre hábitos de vida -
que nada mais são do que hábitos mentais que nos
impulsionam a agir dessa ou daquela forma, a fazer esta ou aquela
opção -, e o desenvolvimento de doenças já
é algo documentado fartamente pela ciência. O surgimento
de uma doença não é algo que cai do céu
sobre nossas cabeças. Ele tem uma história da qual
fazemos parte diretamente.
5. Site Meditadores - Como
desenvolver esse senso de responsabilidade com nossa doença e
seu processo de cura num sistema que maximiza o poder dos
medicamentos como curativos para toda e qualquer dor, inclusive as da
mente?
Gen
Kelsang Pelsang
-
É
importante que cada um assuma sua responsabilidade em relação
à sua própria saúde. A indústria investe
em pesquisa, desenvolve remédios eficazes, capazes de nos
ajudar imensamente. Mas a indústria quer vender, ter lucros
etc. Isso, associado ao apego que temos pela nossa felicidade e pela
aversão a qualquer tipo de dor, é um prato perfeito
para que haja abusos. Incentivar uma pessoa que está em luto a
tomar antidepressivos é um exemplo disso. O luto é um
processo interior importante para assimilarmos a perda de um ente
querido. As conseqüências de se furtar a vivenciar um luto
são graves e prolongadas; logo, não devemos tentar
interrompê-lo com remédios.
6. Site Meditadores - É
difícil conseguir encarar a dor como algo útil e
instrutivo para melhorar a nossa vida. Como praticar isso?
Gen
Kelsang Pelsang
-
Tudo
que está fora dos nossos hábitos pode ser classificado
como difícil. Ser difícil não significa que não
possa e não deva ser feito. Por exemplo, é difícil
ganhar na loteria, mas grande parte das pessoas joga na loteria com a
esperança de ganhar. Elas fazem isso porque acreditam que ter
dinheiro vai solucionar seus problemas. Elas têm esperança.
Ora, é muito mais fácil mudar nossa relação
com a dor do que ganhar na loteria! Podemos, por exemplo, pensar no
que é a dor e em algumas de suas vantagens. Sentir dor não
é o fim do mundo. Dor não tira pedaço. Ela é
apenas um sentimento que acontece no espaço da nossa mente.
Podemos aprender com a nossa dor a ser mais solidário uns com
os outros, mais humanos, mais amigos. Podemos reduzir nosso orgulho,
desenvolver paciência, compaixão e muitas qualidades
importantes para nossos relacionamentos. Há um ditado tibetano
que diz que a dor é como uma vassoura que varre toda a nossa
negatividade.
7. Site Meditadores - A
fé tem sido considerada pela medicina como benéfica
para o sucesso do tratamento de doenças. Estudos de centros
de pesquisa internacionais comprovam que pessoas que se guiam pela
fé, como a que surge com a prática de uma religião,
recuperam-se mais facilmente. Como o Budismo vê essa questão?
Gen
Kelsang Pelsang
-
A
fé é uma das causas para o sucesso de um tratamento,
até porque nossa mente interfere no funcionamento do corpo, na
produção de hormônios etc. É preciso
confiar nos médicos e nos remédios e também nas
bênçãos espirituais para nos curar. Mas devemos
aliar fé e sabedoria. Chegará o dia em que nenhuma
prática da medicina comum ou religiosa poderá nos curar
fisicamente. Quando todas as condições necessárias
para que algo ocorra se reúnem, é inevitável que
isso aconteça. Alguém pode nos curar da morte? Buda
ensina que não devemos desanimar quando estamos doentes e
querendo nos curar. Um dos efeitos mais importantes da cura é
a purificação das negatividades de nossa mente. Por
isso, podemos estar sendo curados e mesmo assim continuar doentes ou
até mesmo morrer. Isso porque os efeitos benéficos de
um processo de cura não são para uma única vida.
Se entendermos esse ponto, que é pura sabedoria, nossa fé
aumentará e nunca desanimaremos.
8. Site Meditadores - Assim
como não podemos fugir de nossas doenças, também
não podemos nos furtar a ajudar os outros que estão
doentes, principalmente familiares e amigos queridos. Como fazê-lo
de forma efetiva?
Gen
Kelsang Pelsang
-
Buda
deu muitos ensinamentos sobre generosidade e incluiu nisso a prática
de dar remédios aos doentes. Servir um chá, manter a
pessoa aquecida, dar vitaminas, alimentos saudáveis são
maneiras muito eficazes de ajudar os outros. Essa prática é
importante agora e também é causa de boa saúde
em nossas vidas futuras. Além disso, se nos aplicarmos
regularmente e com sinceridade na prática do Buda da Medicina,
nos tornaremos capazes de nos curar das nossas doenças físicas
e das interiores, que são as nossas mentes negativas de raiva,
apego, inveja etc. Aos poucos, conseguiremos com isso um poder
especial para ajudar os outros. O Buda da Medicina será capaz
de ajudar os outros por meio de nós. Essa prática é
muito recomendada para profissionais que lidam com saúde.
Porém, todos nós temos uma responsabilidade em relação
às nossas doenças e às doenças de nossos
familiares e amigos mais próximos. A
prática regular das orações e meditações
do Buda da Medicina nos ajuda nisso.
9. Site Meditadores -
No dia
1 de junho, o Centro Budista Vajrapani de Indaiatuba organizará
a iniciação do Buda da Medicina. Conte-nos um pouco
sobre esse Buda e sobre o que significa o momento da iniciação.
Como as pessoas podem efetivamente se beneficiar desse momento? Para
participar, o interessado tem que ser budista?
Gen
Kelsang Pelsang
-
Uma
iniciação é uma cerimônia ritual budista
onde recebemos as bênçãos de um Buda. A cerimônia
é aberta a todos, porque Buda abençoa a todos,
independentemente de serem ou não budistas. Porém,
quando maior for a nossa ligação com Buda e nosso
desejo de que ele nos ajude, mais rapidamente receberemos os
benefícios. O sol brilha, mas se nossa janela estiver fechada,
não receberemos seus raios de luz. A iniciação
abre caminho para cultivarmos essa relação especial com
os seres iluminados. Eles nos ajudam a descobrir que temos uma fonte
de felicidade dentro de nós. Especificamente com relação
ao Buda da Medicina, ele fez promessas especiais de que, no futuro,
protegeria os seres vivos dos tempos degenerados espiritualmente.
Parece que estava falando de nós! Receberemos também um
comentário à prática do Buda da Medicina e,
assim, poderemos fazê-la por conta própria com a
freqüência que desejarmos.
|